A entrevista, gravada pela TV Brasil em maio de 2011, nunca
foi ao ar
Niemeyer: "A vida é
uma merda. Já nascemos condenados a desaparecer"
Em entrevista inédita, o arquiteto falou dos
projetos, de política, dos amigos e da vida
"Eu acho a vida uma merda, apesar de seus encantos. Já nascemos
condenados”. O desabafo foi feito por Oscar Niemeyer, em maio de 2011. Ao
questionar ao que estávamos condenados ao nascer, fiquei surpreso com a
resposta: “a desaparecer”, desabafou o arquiteto que àquela altura já acumulava
103 anos muito bem vividos e ainda reclamava como se a morte lhe estivesse
próxima. No seu caso, a “sentença” demorou 19 meses para ser cumprida. Ao
morrer na noite de quarta-feira, Niemeyer já contabilizava 104 anos e 355 dias
ou, mais precisamente 37.986 dias, contando com os dias 29 de fevereiro dos
anos bissextos. Pode não ter sido um recorde mas, sem dúvida, foi uma experiência
fantástica.
Apesar disto, nesta entrevista que foi gravada pelas câmaras da
TV Brasil
e jamais divulgadas, na qual a proposta inicial era falarmos de Darcy Ribeiro,
Niemeyer declarou que com mais de cem anos, uma obra admirada mundialmente, inúmeros
prêmios recebidos, ele achava que lhe faltaram momentos importantes na vida. Na
conversa, ele falou um pouco sobre tudo. Da amizade e do respeito que tinha por
Darcy, à sua admiração Leonel Brizola mas, apesar da voz baixa, se empolgava ao
falar de Luiz Inácio Lula da Silva Lula e, embora não tenha querido
compará-los, não titubeou em mostrar a diferença entre ele e Juscelino
Kubitschek de Oliveira, seu grande amigo.
Como não poderia deixar de ser, reafirmou sua posição de comunista, que
manteve até seus últimos dias, e lembrou as perseguições no período da
ditadura: “Me lembro que fui chamado na polícia umas duas ou três vezes. Na
última, eu vinha da Europa”. Em seguida, resumiu: “Não sofri, como outros
amigos que foram presos, apanharam, conheceram a tortura. Nada disto ocorreu
comigo. Eles tinham prazer em me levar para a polícia e fazer inquérito”.
Ao falar de suas obras, lembrou da Igreja de São Francisco de Assis, na
Pampulha, em Belo Horizonte (MG), como aquela que mais se aproximou do projeto
original. Ainda defendeu os Cieps, como “algo que ia revolucionar o ensino” e o
Sambódromo, lamentando apenas que tenham acabado com as salas de aula que
funcionavam nos camarotes, durante o ano letivo. No fim, resumiu: ”Sambódromo é
a festa, feito carnaval, a festa do povo”.
Na conversa um comentário de Niemeyer pode ser entendido como uma
receita de um homem que se dizia comunista e ateu, para o sucesso de sua
passagem entre nós :“ a vida é mulher do lado e o resto seja o que Deus
quiser”.
Nesses cem anos que o senhor já viveu, qual o momento mais importante? O
que mais o marcou?
Ah, não tive momento importante. Se existiram, certamente não foi na
Arquitetura. Foi alguma coisa que na vida me emocionou.
O que mais lhe emocionou na vida?
Sei lá. A vida é tão difícil. O mundo não é alegre não, o mundo é uma merda.
A gente tem que lutar por viver, já nasce condenado. Eu não sou... não acho que
a vida seja tão fundamental.
Mas a sua vida foi sempre muito fantástica.
É o que vivi, o que pude fazer, tentei fazer.
O senhor continua fazendo, aos 100 e poucos anos....
Eu gosto de trabalhar, estou um pouco absorvido pela Arquitetura, mas gosto
de ficar parado também, ficar pensando nas coisas. Lembrar que o mundo podia
ser melhor, os homens podiam ser mais generosos. Um olhar o outro com mais
fraternidade. Mas isto tudo o partido (comunista) oferece, e com uma ideia
justa. Um dia vai ser realizado.
O senhor é um arquiteto reconhecido mundialmente. Qual das suas obras
mundiais lhe trouxeram mais orgulho?
A melhor obra que fiz na Europa é a que foi inaugurada agora, na Espanha. É
uma praça enorme, com um grande auditório e um museu (N.R. Trata-se do Centro
Cultural Internacional Oscar Niemeyer, na cidade de Avilés). Então, contou
muito lá na vida dos espanhois. Tem sido muito visitada, é uma obra muito bem
construída Talvez eu pudesse dizer que foi o melhor que já fiz.
Mas os franceses também lhe respeitam muito.
Não tem nada que respeitam, mas eles gostam do meu trabalho.
Lá na França, o que o senhor acha que mais chamou a atenção?
Se eu tivesse que sair do Brasil iria para a França. É um país
fabuloso, o povo é amável, inteligente, progressista. Me sinto bem na
França, tive o apoio do Partido Comunista de lá, fiz a sede do partido e tive a
sorte de encontrar o Andre Malraux, ministro da Cultura de De Gaulle. Fui para
a França de navio, quando arrebentou o golpe militar no Brasil de 1964. Então
eles invadiram meu apartamento e meu escritório. Quando o Malraux soube o que
estava acontecendo, durante minha viagem à França, ele logo conseguiu um
decreto do De Gaulle, que me autorizava ficar no país o quanto eu quisesse como
arquiteto francês.
Foi o de Gaulle quem lhe deu este decreto....
Dele mesmo, ele propôs ao Malraux. De modo que eu tive mais contato com o
ministro, um sujeito inteligente, encantador. Ele me ajudou muito, participava
das exposições que eu fizesse. Foi uma figura importante para mim.
De todos os seus projetos, qual o que o senhor considera que teve o
resultado mais próximo do que pensou quando projetou?
Talvez um projeto pequenino, da Igreja da Pampulha, do Juscelino. Ele queria
fazer uma Igreja, chamou um arquiteto e não gostou, então me convidou. Aí que
eu conheci o Juscelino e a Igreja da Pampulha teve um sucesso que mudava
completamente a concepção de uma Igreja: era um prédio moderno, chamei pintores
e escultores para trabalharem comigo no projeto. Foi uma obra feita no sentido
de englobar arquitetura, pintura e escultura. Me deu um pouco mais de
prosperidade de prosseguir no trabalho.
O senhor conheceu Lula na época em que ele era o líder operário. Qual sua
opinião sobre o ex-presidente?
Ele é amigo do povo, eu o conheci muito tempo atrás. Era a mesma figura,
cheia de entusiasmo, querendo fazer as coisas. Uma figura fantástica. Acho que
para o Brasil, é o Lula que nos permite hoje sorrir um pouco. Hoje a vida é tão
difícil, né?
Entre o Juscelino e o Lula quem o senhor acha que fez mais pelo país?
Não quero comparar.
O senhor foi amigo de ambos, não?
É lógico. Juscelino também era cheio de entusiasmo. Mas a vantagem do Lula
tem é que ele veio do nada, era operário. Ele cresceu na luta política, lutando
pela vida, até se transformar em um líder político da maior importância, aceito
no mundo inteiro. Todo mundo respeita o Lula.
E o senhor acha que a Dilma vai pelo mesmo caminho?
Acho que ela deve ir, né?
Mas é difícil ela seguir a trilha do Lula, não?
Pois é, mas Dilma tem contato bom com Lula. Eu acho que ela vai
caminhar bem.
O senhor está gostando do que ela está fazendo?
Estou, por enquanto não tenho nada a reclamar.
Quando Darcy Ribeiro acompanhou Brizola na campanha para a presidência,
em 1989, ele foi ao Rio Grande do Sul e todos falavam do marido da Dilma,
Carlos Augusto, líder do PDT. Mas Darcy teria dito ‘vocês não sabem nada, ele é
bom, mas a mulher dele é melhor ainda’.
Que falta de respeito...(risos)
Não, disse que a mulher era muito mais inteligente...
Ah, sim.
E se referia à Dilma. Darcy nunca comentou nada com o senhor a respeito
da Dilma?
Não. Darcy era tão inteligente, tinha uma formação tão humana, que inspirava
toda a confiança.Tinha aquele entusiasmo pelo índio, escrevendo, indo para lá
no meio deles, dando uma importância enorme, procurando defender. O Darcy foi
uma grande figura. Tivemos muito contato, ele era meu amigo. Fiz até uma casa
para ele em Maricá. Quer dizer, foi ele quem fez a casa. Quando fui desenhar,
já estava desenhada. Em todo caso, ele usou a casa em um período em que estava
muito feliz, muito contente com a vida, cheio de sonhos. Seu livro,
Brasileiros,
foi muito bem feito, correto, na análise das coisas. Um brasileiro ilustre,
brasileiro da maior importância foi o Darcy.
O senhor chegou a dirigir a Faculdade de Arquitetura?
Acho que foi na época em que fui retirado de lá pelos militares e quem
assumiu meu lugar foi o Sérgio Bernardes (N.R. Niemeyer fez uma pequena
confusão, quem o substituiu foi Ítalo Campofiorito).
O Campofiorito conta que a polícia chegou lá na UnB procurando o senhor.
O senhor não estava, perguntaram quem o substituía e aí o levaram preso.
(rindo) Nem sabia disto.
Não?
A pressão da direita era permanente, mas não me lembro destes detalhes não.
Me lembro que fui chamado na polícia umas duas ou três vezes. Na última, eu
vinha da Europa, tinha ficado lá por dois anos e quando voltei pensei que
tinham me esquecido. Mas não. Ainda me prenderam e me levara para a Polícia
Central,
Para o Dops?
É, mas não posso me queixar, porque só me incomodaram. Não sofri, como
outros amigos que foram presos, apanharam, conheceram a tortura. Nada disto
ocorreu comigo. Eles tinham prazer em me levar para a polícia e fazer
inquérito.
O senhor trabalhou com o Darcy Ribeiro no projeto dos Cieps, do Museu da
América Latina e da Universidade Norte Fluminense. Qual destes foi o mais
importante para o senhor?
O mais importante para nós era o projeto dos Cieps. Era algo que ia
revolucionar o ensino. O Darcy lutou, o Brizola lutou, todo mundo lutou para
fazer funcionar. Mas ele nunca foi desenvolvido como poderia ter sido. Era uma maneira
simples de conduzir a juventude para o conhecimento.
O senhor acha que não houve continuidade meramente por questões
políticas?
Não houve tempo de se consolidar e o governo compreender que era um projeto
indispensável. De modo que acabou de repente. Mais importante do que o prédio
era ideia. Mas não sei como está funcionando no momento do ponto de vista do
ensino.
E a UNB não foi um passo importante no ensino universitário brasileiro?
No começo foi. Eu fiz o projeto, era um projeto parecido com o espírito de
arquitetura do que eu fiz em Paris. De modo que era uma coisa que ia funcionar
muito bem. Mas não foi bem conduzido.
E depois, quando o Cristovam Buarque assumiu, não voltou ao eixo do que
era para ser?
Não. Eu acho que a universidade foi mal construída. Mas está servindo, está
atualizando o ensino.
Como foi seu projeto da Universidade da Argélia?
Foi tudo feito com muito coração, muita vontade de fazer bem feito, de
ser útil. De modo que a coisa corria bem, com uns tropeços inevitáveis de vez
em quando, uma coisa que ocorre, mas quando a direção é firme, a obra se faz
bem. Agora eu fiz um projeto na Espanha que é um sucesso, são dois grandes
prédios: um teatro e um museu e uma praça fantástica. De modo que quando a
coisa tem bom acolhimento e boa orientação, o trabalho satisfaz e a gente fica
satisfeito. Senão ficamos lembrando só do que estava no papel.
O Sambódromo surgiu na cabeça de quem primeiro, do senhor ou do Darcy?
Na minha não foi, deve ter sido na dele. Eu fiz o desenho. A gente
conversava, ele explicava o que queria. Fiz o estudo, ele modificou o que quis.
E a obra está feita, e é útil realmente. Sambódromo é a festa, feito carnaval,
a festa do povo.
A ideia das salas de aula nos camarotes no resto do ano começou no início
do projeto, ou surgiu no meio do caminho?
Foi ideia do Darcy. Me lembro que quando o prefeito da França esteve aqui,
fomos mostrar o Sambódromo para ele. Quando eu disse que embaixo ficavam as
salas de aula ele ficou espantado. “Que ideia formidável, aproveitar esta
correia imensa para levar cultura ao país”, ele comentou.
Mas depois parou, também.
Não, agora vai continuar. Com certeza o Lula vai manter as escolas no
subsolo. Pelo menos é um gesto corajoso de entusiasmo. Ninguém pensou em fazer
o estádio com as aulas embaixo, só mesmo o Darcy poderia ter uma ideia dessas.
Nesta nossa pequena conversa, você me deu uma ideia importante. O negócio das
salas de aula devia ser mantido embaixo dos estádios.
Quem influenciava mais quem, o Darcy influenciava mais o Brizola ou o
Brizola influenciava mais o Darcy?
Acho que o Darcy era mais o intelectual. E Brizola era um homem corajoso,
correto e tinha vontade de fazer as coisas. Teria feito muito mais se não
tivesse tido tanto problema. Tenho a maior admiração pelo Brizola, era um
brasileiro ilustre, corajoso, sabia fazer apolítica.
Uma vez o Pasquim lhe perguntou como era sua relação com as mulheres...
Eu disse, a vida é mulher do lado e o resto seja o que Deus quiser. Eles
acharam muita graça e é verdade. Você tem que ter mulher do lado, não é? A vida
é difícil, o sujeito luta para fazer a vida ficar melhor e mais generosa. Mas
você despede dos amigos. Eu acho a vida uma merda, apesar de seus encantos. Já
nascemos condenados.
Condenados ao quê?
A desaparecer.
Marcelo Auler
DOBLOG: Homens como você jamais desaparecem, A SUA OBRA O IMORTALIZA.